| Comprei minha entrada para assistir La isla desierta e fiz fila indiana enquanto o rapaz explicava que, a qualquer sinal de pânico, poderíamos gritar o nome dele, socorro ou mama (sic), e rapidamente alguém nos resgataria. Só o que eu sabia era que a peça acontecia na escuridão total, e minha audição e olfato seriam os sentidos predominantes. Alright.A fila indiana é para entrar – já sem nenhuma luz – no salão onde acontece o espetáculo. Os atores nos ajudam a encontrar nossas cadeiras e, de entrada, me impressionou a literalidade da escuridão. Não era como quando apagamos a luz do quarto e, em alguns segundos, nossos olhos se acostumam. Era cegueira completa.
Primeiro achei bastante engraçado, mas quando as risadas acabaram, deu uma certa angústia, que tampouco durou muito. A peça começa e é incrível. Os cheiros, os sons, as histórias que exercitam a imaginação… e a gente começa a querer adivinhar se o que estamos sentindo é cravo, maresia ou capim limão. Se esse conto se conta no mar ou na floresta. Se o cheiro de café vem do escritório. E quando acendem as luzes aquele salão não era nada como eu tinha imaginado, ainda que eu estivesse com meus olhos abertos o tempo todo.
A experiência é tão incrível que eu quase me emociono quando me avisam que, no mesmo Teatro de Ciegos, existe um jantar. São servidas seis tapas e vinho, em mesinhas de quatro lugares – ou seja, pessoas estranhas poderão sentar na sua mesa, o que pode ser bastante curioso quando você não enxerga as pessoas -, enquanto Luz Yacianci canta e Carlos Cabrera toca piano. Se a moça ganhou o posto por seu nome ou se é uma feliz coincidência eu não sei, só sei que o espetáculo ganhou o nome de A ciegas con Luz e vale cada um dos 80 pesos que cobra.
É super engraçado aprender onde fica sua taça de vinho – inclusive achar a boca pode ser complicado dependendo do grau de coordenação -, seu guardanapo, a cesta de pães… inclusive enfiei o dedo na minha sobremesa logo que me sentei. Mas, deixando a graça de lado, é incrível sentir o gosto de coisas que você não pode ver e trocar a experiência com as pessoas, enquanto tentamos adivinhar o que é que estamos comendo (por sorte foi uma brasileira super simpática a única estranha da minha mesa, onde estavam uma amiga e meu irmão). As comidas não são super complexas – o que ajuda os mais frescos – e tudo se come com a mão. O vinho é melhor do que os oferecidos em jantares de tango, sem dúvidas, e as músicas são conhecidas e bem bonitas.
A peça e o jantar são duas experiências completamente distintas e não me perguntem qual eu recomendo, porque eu recomendo as duas fortemente. A primeira custa 35 pesos e acontece toda sexta e sábado, às 21 e 23 horas, o jantar é aos domingos, às nove.
www.teatrociego.org |
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